300 anos de Fortaleza: memórias e vínculos de quem vive a cidade
Por Ricardo Garcia/Narla Lopes20/04/2026 08:00 | Atualizado há 35 minutos
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A cidade de Fortaleza completou 300 anos em 2026, e a história da capital cearense perpassa a vida de muitos dos seus habitantes, frequentadores e admiradores. Pessoas que construíram memórias, conexões pessoais e/ou profissionais com a cidade compartilham experiências de afeto e de pertencimento territorial.
Após abordar o papel do Legislativo cearense no desenvolvimento político e social de Fortaleza, a segunda reportagem especial da Agência de Notícias da Alece sobre os 300 anos da cidade destaca os vínculos com deputados da Casa, além de ex-prefeitos da capital cearense.
Entre esses personagens estão parlamentares que exercem atualmente mandatos na Alece e que têm suas biografias marcadas por atuações em bairros da Capital, assim como nomes que viraram importantes lideranças políticas do Estado e que projetaram suas carreiras a partir de ligações íntimas com Fortaleza.
MEMÓRIAS DE UMA FORTALEZA ÍNTIMA
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O ex-prefeito de Fortaleza Lúcio Alcântara fala do prazer de ter gerido a cidade - Foto: Júnior Pio
“Um grande útero urbano”. É assim que Lúcio Alcântara, ex-governador do Ceará e prefeito de Fortaleza entre 1979 e 1982, define a sua história de conexão com a cidade. Ele comenta que foi no município onde foi gerada e desenvolvida sua personalidade. “Vivi a grande aventura da minha vida em Fortaleza. Aqui realizei os meus sonhos, meus ideais e, naturalmente, também enfrentei as vicissitudes e os inevitáveis desgostos que a própria existência acarreta”, relembra.
Segundo ele, apesar das naturais adversidades, o amor, a dedicação e o interesse pela cidade sempre permaneceram os mesmos. “Aqui vivi e ainda vivo todas as fases da minha existência. Toda essa sensação de identificação e intimidade com a cidade se consolidou quando da minha passagem pela Prefeitura de Fortaleza. De todos os cargos que exerci no Executivo e no Legislativo, ser prefeito de Fortaleza foi o que mais me empolgou, mais me deu prazer e me encheu de satisfação, por poder realizar coisas concretas, palpáveis e visíveis para a população”, enfatiza.
De acordo com Lúcio Alcântara, foi durante o período em que administrou a cidade que ele passou a desenvolver um olhar mais urbano e atencioso para as demandas de uma metrópole. “Eu tive a oportunidade de realizar pequenos e grandes benefícios para Fortaleza, que repercutiram diretamente na vida das pessoas e no seu dia a dia. É por isso que tenho uma sensação de dever cumprido, de que essa dedicação, esse meu olhar urbano e essa minha preocupação com a cidade, com a sua memória, o seu presente e o seu futuro nunca me abandonaram”, relata.
Ele complementa que a sua ligação estreita com Fortaleza se reflete no sentimento que nutre pela cidade. “A intimidade com Fortaleza permanece muito viva em mim. É um sentimento muito forte, do qual eu não me afasto nunca, porque me dá uma dimensão humana do que é uma comunidade do porte da nossa cidade, com tanta beleza, com tanto a se admirar, mas que também requer muitos cuidados”, ressalta.

A ex-prefeita Maria Luiza Fontenele relembra histórias de lutas que passaram por bairros da Capital - Foto: José Leomar
Prefeita de Fortaleza entre 1986 e 1989, tendo sido a primeira mulher eleita para o cargo na cidade e a primeira a governar uma capital brasileira, Maria Luiza Fontenele, embora tenha nascido no município de Quixadá, desenvolveu uma história bastante ligada à cidade de Fortaleza.
Ela resgata uma Fortaleza construída nas ruas, nos movimentos e nos espaços de encontro. Suas lembranças passam pelos bairros Jacarecanga e Benfica, onde a juventude encontrou voz nas lutas estudantis.
“Quando olho para a minha cidade, Fortaleza, as primeiras lembranças que me vêm à memória são as lutas do Ceará. Eu morei no bairro Jacarecanga, onde lutávamos para que as passagens de estudantes não fossem tão elevadas. Depois vieram as grandes passeatas, a Marcha do Pirambu e o movimento estudantil”, recorda.
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A Reitoria da Universidade Federal do Ceará é um marco do bairro Benfica - Foto: Marcos Moura
Ela também destaca a importância dos espaços de mobilização naquele período. “Na Faculdade de Direito, no Benfica, na Praça João Gentil (Gentilândia), criamos um espaço de manifestação dos estudantes universitários”, rememora.
FORTALEZA DE AFETOS E VÍNCULOS
Mais do que uma relação de pertencimento e de conexão com Fortaleza, muitos desenvolvem laços mais profundos e íntimos com a cidade, a partir de vivências bastante locais. Bairros e localidades da capital cearense guardam histórias e memórias que marcam a trajetória de alguns deputados da Alece.
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O deputado Fernando Hugo aponta o bairro Messejana como local de construção de sua vida pública - Foto: Júnior Pio
O deputado Fernando Hugo (Republicanos), por exemplo, define-se como um “filho da Messejana”, bairro onde nasceu e se criou. Para ele, a localidade simboliza o seu elo com Fortaleza. “A memória que melhor traduz a minha Fortaleza nasce em Messejana, nas suas ruas simples, no convívio com o povo, na fé do nosso povo e na força das famílias que ali construíram suas histórias. É o olhar do cidadão comum, trabalhador, que acorda cedo e luta com dignidade. Essa é a Fortaleza que mora em mim: humana, resiliente e cheia de esperança”, exalta.
Ainda na avaliação do parlamentar, Messejana não é apenas o seu berço e o seu refúgio, mas o local onde construiu a sua vida pública. “Messejana foi a minha escola de vida. Foi ali que aprendi que política de verdade se faz com presença, escuta e compromisso. O contato direto com as necessidades da população moldou a minha atuação pública. Não foi nos gabinetes que eu aprendi política, foi nas ruas, no diálogo com o povo. E é isso que carrego até hoje: o dever de servir”, assinala.
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A Lagoa de Messejana é um dos símbolos mais conhecidos do bairro de mesmo nome - Foto: Rodrigo Carvalho
Para Fernando Hugo, apesar de sua forte ligação com o bairro Messejana, sua conexão com Fortaleza vai além dos limites locais. “Minha conexão com Fortaleza é de amor profundo e gratidão. Fortaleza não é apenas a cidade onde vivo, é a cidade que me formou como cidadão e como homem público. Cada bairro, cada história, cada rosto representa uma responsabilidade que assumo com seriedade. Eu não apenas represento Fortaleza, eu pertenço a ela”, comenta.
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A deputada Larissa Gaspar foi vereadora da cidade por dois mandatos consecutivos - Foto: Júnior Pio
Já a deputada Larissa Gaspar (PT) relata as experiências vividas no bairro Jardim das Oliveiras. “O Jardim das Oliveiras traduz uma Fortaleza de contrastes. É um bairro que reúne áreas mais estruturadas, mas também comunidades com muitas vulnerabilidades, como Tasso Jereissati, Santo Afonso e Tancredo Neves. Um lugar que me marca muito é a Lagoa da Zeza: um espaço bonito, com área verde e um corpo hídrico importante, que, mesmo com pouco cuidado, segue sendo um espaço vivo, com quadra, areninha e convivência comunitária. É uma Fortaleza que resiste, que ocupa seus espaços, mas que precisa de mais atenção do poder público”, aponta.
A deputada salienta que viver no Jardim das Oliveiras a colocou em contato direto com as desigualdades da cidade, enfatizando que a falta de drenagem, os problemas de infraestrutura, a ausência de equipamentos públicos, como cultura, lazer e assistência social, são realidades presentes na localidade. “Essa vivência fortaleceu o meu compromisso político: lutar por investimentos, por dignidade e por políticas públicas que garantam direitos básicos à população”, pontua, acrescentando que a profundidade de sua conexão com a cidade faz com que ela a enxergue de uma maneira mais plural.
Lagoa da Zeza é uma importante área de lazer dos moradores do bairro Jardim das Oliveiras - Foto: Máximo Moura
“Sou fortalezense e já vivi em vários bairros ao longo da vida, como Parquelândia, Damas, Fátima e São João do Tauape, até chegar ao Jardim das Oliveiras, onde moro desde 2012. A minha trajetória é marcada pela militância em movimentos sociais, de mulheres, juventude e também pela cultura, como a capoeira e o surfe. Isso me deu uma vivência plural da cidade e um olhar atento às suas potencialidades e desigualdades”, discorre Larissa Gaspar.
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O deputado Antônio Henrique foi presidente da Câmara de Fortaleza por duas ocasiões - Foto: Paulo Rocha
Natural do Rio Grande do Norte, o deputado Antônio Henrique (PSDB) adotou Fortaleza como lar ainda na infância. Chegou à Capital aos 11 anos e foi no bairro Parque São José, onde cresceu, que construiu suas principais referências e sua relação com a cidade. Hoje morando no Parque Presidente Vargas, ele afirma que foi na vivência da periferia que aprendeu o que, para ele, define o espírito do fortalezense.
José Inácio segura foto do pai, conhecido como “Compadinho”, que dá nome ao comércio tradicional no bairro Parque São José - Foto: Pedro Albuquerque
As lembranças do parlamentar passam por lugares simples, mas carregados de significado. Um deles é o tradicional “Compadinho”, localizado no bairro Parque São José, que atravessa o tempo como ponto de encontro da comunidade local. “É aquele comércio que tem de tudo: do querosene ao chapéu de palha. O dono chama todo mundo de ‘cumpade’. Para mim, esse lugar simboliza a nossa gente: trabalhadora, resiliente e que não desiste nunca”, recorda.
Entre a escola pública, onde descobriu o gosto pelos estudos, e as brincadeiras de rua, como o jogo de bila, Antônio Henrique construiu mais do que memórias, formou sua consciência social. No convívio com as dificuldades do dia a dia, passou a compreender, na prática, a importância das políticas públicas. “Vi pessoas enfrentando dificuldades para ter acesso ao básico, como alimentação, saúde e educação, e isso fez nascer em mim o desejo de contribuir com mudanças reais. Foi então que entrei na vida pública, com o compromisso de ajudar quem mais precisa”, afirma.
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O deputado Renato Roseno enaltece a história de luta e força dos fortalezenses - Foto: Júnior Pio
Quem também, mesmo não nascido em Fortaleza, construiu raízes e vínculos profundos com a capital cearense é o deputado Renato Roseno (Psol). Natural de São Paulo, mas com família cearense e trajetória política trilhada nas ruas de Fortaleza, ele enaltece uma cidade marcada pela resistência e por um povo trabalhador, que não se conforma com as injustiças, enfatizando que a força da Capital está no seu povo.
“É uma gente teimosa, que guarda a memória do sertão e o desejo de viver bem. Apesar dos problemas, é um povo que ama o seu chão, as esquinas, as calçadas, os encontros”, acrescenta.
Nos 300 anos da cidade, Renato Roseno presta a sua homenagem a um lugar que luta, que trabalha e que quer ser melhor. “É a terra de quem enfrenta a injustiça, de quem ama a natureza e defende a cidade daqueles que querem transformá-la em mercadoria. É a cidade da greve dos jangadeiros pela abolição, dos levantes populares contra as oligarquias, dos sindicatos, dos movimentos populares, dos rebeldes”, enumera.
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O deputado Salmito também presidiu o Legislativo municipal por duas vezes - Foto: Júnior Pio
O lado acolhedor de Fortaleza e da sua gente é um dos pontos mais positivos da cidade, na visão do deputado Salmito (PSB). Ele menciona que a antiga vila – referência ao período em que Fortaleza ainda era um pequeno povoado, antes de se tornar capital e crescer – transformou-se em uma grande metrópole, sendo hoje a maior economia entre as capitais do Nordeste, sem perder o papel de “cidade-mãe”. “Ela acolhe todos os cearenses, vindos de todos os municípios, em busca de trabalho, estudo ou melhores condições de vida”, reforça.
Ainda segundo o parlamentar, a história da cidade é marcada por conquistas e pela perseverança da população. Salmito também aborda o papel do poder público na construção desse caminho. “O compromisso é continuar trabalhando para que a população tenha acesso a educação de qualidade, saúde eficiente, mobilidade e uma vida melhor”, afirma.
FORTALEZA MAIS JUSTA PARA O FUTURO
Em relação aos sentimentos e percepções sobre a cidade atualmente e sobre o seu futuro, Lúcio Alcântara e Maria Luiza Fontenele apresentam suas impressões.
Para Lúcio Alcântara, no aniversário de 300 anos de Fortaleza, é necessário celebrar as conquistas e as memórias da Capital, sem esquecer as carências que ela ainda enfrenta. “Precisamos voltar o nosso olhar para o passado, agradecendo aos anônimos, políticos, empresários, intelectuais, profissionais liberais, professores e tantos outros que, com sua luta, ajudaram a construir a história desta cidade, reconhecendo o que fizeram em favor da nossa querida Fortaleza. Mas também devemos olhar com carinho para as suas necessidades, para que mais pessoas se engajem e participem nas soluções dos seus problemas”, assinala.
Já Maria Luiza compara os diferentes momentos da cidade que presenciou e chama a atenção para problemas que, segundo ela, ainda persistem. “Quando fui prefeita, Fortaleza era a quinta capital mais mal servida de esgoto do mundo, e esse problema permanece até hoje, trazendo dificuldades principalmente para a população da periferia”, pontua. De acordo com ela, muitas famílias chegaram a construir suas casas em áreas que hoje sofrem com alagamentos.
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A Praça do Ferreira está no “coração” da cidade e é um dos marcos afetivos da população - Foto: Rodrigo Carvalho
A ex-prefeita também observa mudanças mais recentes na dinâmica urbana, como o aumento da população em situação de rua, e defende uma cidade mais voltada para as pessoas. “Desejo que todos possam dizer: ‘Essa cidade sou eu, o nome dessa cidade é meu’. Que não haja pessoas em situação de rua e que Fortaleza seja o espaço dos seres humanos, e não o império do carro”, almeja.
Para os parlamentares, o desejo para o futuro também é comum: o enfrentamento das desigualdades e a justiça social são pautas que merecem uma atenção especial do poder público.
Uma Fortaleza mais justa, mais humana e mais próxima do seu povo. É o anseio do deputado Fernando Hugo. “Uma cidade que cresça sem esquecer suas raízes, que avance com responsabilidade social e que continue sendo esse patrimônio de belezas e oportunidades. Que os próximos anos sejam de desenvolvimento com inclusão, de progresso com dignidade e de esperança renovada para todos os fortalezenses”, expressa.
Para a deputada Larissa Gaspar, Fortaleza é uma cidade linda, com praias, parques e uma cultura rica, mas ainda muito desigual. “Precisamos de mais investimentos nas áreas mais vulneráveis, em infraestrutura, cultura, lazer e políticas sociais. Espaços como o mercado do Tancredo Neves, as praças das igrejas e parques urbanos esquecidos precisam de cuidado. Quero uma cidade onde todas as pessoas tenham o direito de viver e usufruir plenamente da cidade, com dignidade e qualidade de vida”, reforça.
A luta por mais justiça e oportunidades é o desejo do deputado Antônio Henrique quando vislumbra o futuro. “Sonho com uma Fortaleza onde as pessoas tenham acesso digno a saúde, educação, emprego e segurança”, projeta.
Já Salmito considera que Fortaleza conseguiu avançar em muitas pautas e espera que os avanços continuem. “Que os próximos 300 anos sejam de ainda mais conquistas e oportunidades sociais e econômicas”, sublinha.
Edição: Vandecy Dourado
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