Notícias

Alece debate estratégias para o fortalecimento da apicultura cearense

Por Ariadne Sousa
17/07/2026 11:59 | Atualizado há 5 horas

Compartilhe esta notícia:

Alece debate estratégias para o fortalecimento da apicultura cearense - Foto: Pedro Albuquerque

A Comissão do Meio Ambiente, Mudanças Climáticas e Desenvolvimento do Semiárido da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece) levantou demandas do setor apícola e discutiu propostas para o fortalecimento da cadeia produtiva local, em audiência pública realizada na manhã desta sexta-feira (17/07). Na ocasião, também foram debatidas estratégias para o desenvolvimento sustentável das regiões produtoras.

O encontro atendeu a requerimento de autoria do deputado Bruno Pedrosa (PT), que presidiu a audiência, com subscrição do deputado Renato Roseno (Psol). Durante o debate, produtores, especialistas e entidades destacaram desafios no cenário local, como a necessidade de adequação das casas de mel para poderem obter as certificações necessárias à comercialização do mel produzido, além dos impactos do uso de agrotóxicos na agricultura e das queimadas sobre as colmeias.

APICULTURA NO CEARÁ 

O coordenador de Pecuária da Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA), Vital Neto, apontou que o Ceará é hoje o segundo maior produtor de mel do Nordeste, perdendo apenas para o Piauí, com produção em torno de 7 milhões de quilos por ano. “Isso é uma produção muito importante. Além do que, o mel do Ceará é considerado pelos órgãos internacionais como o melhor mel do Brasil”, afirmou.

A apicultura cearense tem recebido investimentos por meio do Projeto São José, conforme relatou o coordenador. Apesar disso, ele alertou sobre os riscos que o uso de agrotóxicos gera para toda essa cadeia produtiva. Segundo explicou, as substâncias oferecem riscos à qualidade do mel, assim como à sobrevivência das abelhas. “Essa é uma questão de saúde pública. Nós precisamos defender o meio ambiente, não por ser de esquerda ou ambientalista, mas por uma questão de necessidade”, declarou.

De acordo com o presidente da Federação Cearense de Apicultura (Fecap), Raimundo Joventino, o maior gargalo do setor é a falta da certificação do Serviço de Inspeção Federal (SIF) em 60 casas de mel construídas e equipadas pelo Governo do Ceará, mas que não cumprem os requisitos exigidos para obtenção do selo. “Se a gente conseguisse hoje o apoio para organizar e ‘sifar’ as casas que estão construídas, o Ceará despontaria, talvez, como o maior produtor de mel do Brasil”, disse.

Nesse sentido, o servidor público Raimundo Félix, que atua no Projeto São José, ressaltou que 90% das unidades construídas pelo projeto estão em funcionamento, mas que existem desafios relacionados ao uso adequado desses espaços por cooperativas e produtores. “Se eu pudesse sugerir algo para ver o desenvolvimento dessa atividade, seria, de alguma maneira, tentar viabilizar o apoio a esses produtores que estão com essas casas de mel, para que elas sejam inspecionadas e possam comercializar seu produto”, complementou.

O diretor de Sanidade Animal da Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Ceará (Adagri), Amorim Sobreira, explicou que a entidade atua no controle dos produtores para que possíveis doenças possam ser identificadas e solucionadas rapidamente. “Uma medida que tomamos recentemente foi disponibilizar o cadastro simplificado do apicultor, no qual o produtor passa seus dados, informa onde estão as colmeias e, uma vez feita essa informação, a gente a encaminha para um sistema nacional. Assim, ele fica cadastrado junto aos órgãos públicos, não só aqui no Estado, mas também em nível federal”, ressaltou.

Apicultor no município de Nova Russas há 10 anos, Antônio Martins contou que já chegou a produzir quatro toneladas de mel em anos anteriores, mas que a produção tem caído significativamente em razão dos impactos gerados pela ampliação do uso de agrotóxicos nas lavouras e pelo aumento no número de queimadas. “A gente tem esperança de que o pessoal com poder possa dar força para a gente, porque a apicultura está ficando cada vez mais fraca”, disse.

A experiência do produtor é uma amostra da realidade dos demais apicultores do Ceará, segundo frisou o consultor ambiental Deodato Ramalho. Segundo ele, as principais reclamações dos produtores de mel dizem respeito ao uso de agrotóxicos, sobretudo à pulverização aérea. “Isso tem provocado a morte de milhões de abelhas, porque, de fato, elas são muito sensíveis a esse tipo de produto”, complementou.

Na avaliação do professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) Mikail Olinda de Oliveira, doutor em Abelhas e Polinização, é necessário haver uma mudança nas políticas voltadas às abelhas, considerando também as espécies que não fazem parte da cadeia produtiva direta da apicultura. “A colheita do mel é a ponta final de todo um processo que se inicia com a polinização”, apontou.

Diante disso, ele salientou que discutir a apicultura também deve envolver o debate sobre reflorestamento e recaatingamento. “Se a gente não tratar essa questão, vamos chegar a um ponto no qual a produção de mel, a manutenção das abelhas sem ferrão e a manutenção dos serviços de polinização prestados pelas abelhas solitárias não vão mais acontecer”, alertou.

A audiência contou ainda com a presença do deputado federal José Airton Cirilo (PT-CE) e do vereador de Santa Quitéria Douglas Lira, além de produtores e representantes de entidades do setor.

Edição: Gleydson Silva

Veja também